quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Em apuros

existe um vão e uma linha etérea
que constroem a vida em linha reta
e farelos de fé roçam no caminho
atritando o passo cru de quem sente in natura

se você sente uma dor infinita
é pra você que escrevo;
se você está em uma situação que grita
minhas palavras são feitas sob medida
para seus ouvidos.

mas se você foca o olhar
nas piores coisas a serem vistas:
é pra você que escrevo
pois sensibilidade também é força.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O céu repete-se acima
e o véu sustenta minha rima
porque sou o vento que passa
mas o cheiro que fica
no céu que tu escolher,
serei a sombra sentada na lua minguante
serei a sobra de memória por um instante
e vou livrar, um dia
tua sina da minha rima
com a dor que finca
e a força extinta
do sorriso cravado no meu rosto
que sempre disposto
urgiu do desgosto
pra mudar de posto.
Eu queria ficar
em outro lugar,
mas tu quis deixar
eu voar.

Sou meu lar.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

(eu fiz um poema pra fotografar teu som)

ela emudece a falta 
com o riso estridente
que pinta as brancas paredes

ensurdece o caos quando 
mira os olhos pro muro
falho do meu peito puro

enfeita as janelas 
com uma agitação constante,
constelações distantes 
que vêm nos visitar

quatro paredes se enchem de mar
as ondas bonitas nos fitam com rimas
e ela me espreita até eu aflorar

num descuido calculado,
me beija e me espanta, 
me mata e me encanta,
me faz respirar como humana
mesmo embaixo do mar

nessa vida sacana, ela corre
e socorre, me ajuda a gritar
e grita nos olhos a leveza da alma
que me tira a calma
só pra me aliviar

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

sobre não ir

desfazer-se seria um privilégio
se o descaso fosse um atalho
acessível à mim

se as coisas mais lindas
não fossem as tristes e felizes
simultaneamente
muita coisa já teria sido

o passado assusta
a coragem
do coração

são bruscas as oscilações
que me constroem
diariamente

e são sinceros os pilares
que me fazem 
ficar

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lealdade

pro alto não se joga
de lado não se deixa -
ferida viva e aberta,
sob a lua e as estrelas,
sob a mágoa, 
sob a incessante
mágoa

de cada pingo de chuva
que hoje me atingiu,
abstraí toda aquela tendência 
suicida
de cair no asfalto
e nos carros
e nos vidros
e em todos os lugares mais fundos

porque a dor,
(ah, há dor)
ela encarde todos os meus sorrisos
amarela todas as minhas fotos
alimenta todas as minhas memórias
e queima a minha pele - que anda tão à flor 

a dor me sustenta,
eternizando todas as imperfeições
que adquiri ao sentir
a tranquilidade traíra, a qual
mascarou monstruosamente
a serenidade mais nociva do universo:

o meu amor 
(que ainda te ama)



segunda-feira, 28 de julho de 2014

procurando por todos os lados a solução inalcançável:
ah, se eu pudesse trocar esse problema por aquele outro
se eu pudesse desfazer até não ter mais nada
e transformar toda essa zona numa mina de ouro

mesmo assim, não seria solução
mesmo que as ruas só me guiassem aos locais certos
e que o tempo só passasse sob minha orientação
mesmo que o universo conspirasse somente para me favorecer:
não há solução para uma memória boa
não há disfarce para uma lembrança à toa
só existem labirintos infinitos que se findam em confusão
e a cada tentativa surge uma nova bagunça
um novo começo de destruição
não há o que nos faça esquecer
não há cura para a sensibilidade aflorada demais

quem dirá que há um cais
se todo porto se desfaz?
quem subirá os degrais
se a cura é ineficaz?

desmanche minha memória
e ganhe meu coração

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Plano B

frio

chovi tanto que esfriei,
meu bem

te esperei, enganada
tu nem vem mais
e eu encorajada
por amar demais


tu só quis ir
e eu não poderia me cobrar saber
eu nos fiz rir
eu consegui crer
tu tentou,
fazer o quê?


gelei um pouco
há uma visão mais realista diante dos meus olhos
porque nós chamávamos isso de mágica, amor
e foi mágica
foi sonho, como tu sonhou
mas a realidade nos acordou
e agora já era


mágica sempre rima com
trágica
e eu, com a boa memória que tenho
sempre esqueço disso

a vida acontece, apesar da gente
e agora eu acredito na mágica
de um jeito mais
discrente

segunda-feira, 10 de março de 2014

( )

seja lá o que complete os meus espaços
sei que sou feita de lacunas

lacunas particulares
complexas misturas
entre a falta
e a abundância
completas bobagens de quem sente
a mais
pra mais
demais

existem vazios que se enchem
quando estou só
existem inchaços que se espremem
quando somos todos pó

há poeira sobre nossos cabelos
existem gessos em nossas mãos
há concreto que sufoca o coração

os destroços nos abasteceram
com mortes
sem óbito

o que se ausenta quando todos estão presentes?

não me adianta ter ruas
se não tenho mãos para me
assegurar
se tenho estradas,
mas não existem almas ao meu lado
qual é o sentido de ir?

contrapondo-se
sei muito bem andar a pé
de pé
erguida por solidões
sustentada por individualidades
cotidianas

somos seres sozinhos
particularmente encaminhados
ao doce prazer
de independer

mas a maior 
mais paradoxal
questão humana
é a de sermos frágeis demais
para compartilharmos
sentimentos
apenas com nós
mesmos

despejamos em alguém o ódio
ou o amor
ou a saudade
ou a tristeza
ou a felicidade

há que nos traga paz
quem nos deixe plenos
em apenas um olhar

há quem exista em nós
mesmo que estejamos
em uma jornada
solitária

somos feitos de faltas

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

finais são quedas livres
precipícios mudos
são imundos edifícios
que emudecem qualquer início
de vida

são os finais que nos permitem ir
sem juízo ou rota
que nos emparedam
em estradas sem
volta

final é ir
e vir
sem poder
de intervir
em mais

nada

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

os dias têm fim, 
as tardes também
a manhã começa
no final da noite

nós temos fim,
temos sim
a cada dia um novo
desfecho
um esquecimento
mudo
temporário

um fim 
precário

findamos nós
findamos durante
e após
e sem até mesmo
começar

findamos de
mentirinha
findamos até lembrarmos
da memória
da história
que ousemos
terminar

será que o sol
se lembra
da manhã
de hoje?
e as estrelas
teriam lembrança
de ontem a noite?

começamos com
tantos finais
e trilhamos
tantos enredos
iguais

o mundo é redondo
e gira
e somos apenas
soldados
de um círculo
que, sim,
jamais terá

fim