segunda-feira, 10 de março de 2014

( )

seja lá o que complete os meus espaços
sei que sou feita de lacunas

lacunas particulares
complexas misturas
entre a falta
e a abundância
completas bobagens de quem sente
a mais
pra mais
demais

existem vazios que se enchem
quando estou só
existem inchaços que se espremem
quando somos todos pó

há poeira sobre nossos cabelos
existem gessos em nossas mãos
há concreto que sufoca o coração

os destroços nos abasteceram
com mortes
sem óbito

o que se ausenta quando todos estão presentes?

não me adianta ter ruas
se não tenho mãos para me
assegurar
se tenho estradas,
mas não existem almas ao meu lado
qual é o sentido de ir?

contrapondo-se
sei muito bem andar a pé
de pé
erguida por solidões
sustentada por individualidades
cotidianas

somos seres sozinhos
particularmente encaminhados
ao doce prazer
de independer

mas a maior 
mais paradoxal
questão humana
é a de sermos frágeis demais
para compartilharmos
sentimentos
apenas com nós
mesmos

despejamos em alguém o ódio
ou o amor
ou a saudade
ou a tristeza
ou a felicidade

há que nos traga paz
quem nos deixe plenos
em apenas um olhar

há quem exista em nós
mesmo que estejamos
em uma jornada
solitária

somos feitos de faltas