terça-feira, 9 de junho de 2015

veja por onde andei
e os goles que bebi
assista o meu desfile
pelas faces que não vi
depois de quilômetros
só por um escapismo
ainda há a velha casa bamba
fruto de um desdém

olhe para trás
mas não faça muito alarde
é só uma maneira de paz
pra que não seja muito tarde
mas se só o agora te for visível
fica por minha conta
o combustível
pra descansar em algum lugar

venho morando num 
acostamento
de alguma via sentimental
quero uma fuga dessa fase
avulsa
quero um par de asas
e um vendaval

Autoconsumo

eu sou a minha presa
e minha predadora
saboreio o lascar das minhas
fibras
e mastigo a dor hostil

amarga é a realidade subversiva
que há em meus subsolos
e suave é o andar da vida cínica
de quem omite o mundo
caleidoscópios
sinestésicos
girando pelo céu

sons confortáveis
desmascarando
o meu véu

algumas folhas se balançam
pelo ar
algumas danças nos intimam
a cantar

cores vivas
coisas lindas
e a incerteza nos guiando

dias cinzas
noites frias
calmamente indo embora

o tempo ri,
mas não perdoa
hoje sim, 
amanhã destoa

a corda-bamba é o
caminho
ontem chuva,
amanhã solzinho

somos fotografias
de momentos reais
somos biografias
de nossos próprios
finais

um caleidoscópio 
imprevisível
e meu anseio
indiscutível
o universo é um viajante
bagunceiro
que deixa sua mochila no
caminho
para as estrelas tropeçarem

as linhas do acaso se cruzam
em nós
dificultando os fins
e iniciando maus começos

quem poderia apontar o erro?
foi uma questão de confiança
cósmica
e de aliança aberta

foi
por si só
um aconchego no
nunca
e já chegou a hora
de voltar pra casa
pra sempre
os problemas atuam
na nossa vida
de maneira
assídua

e a acidez nos dissolve
em desatino
em ritmo
contínuo

confesso que se
não nos dissimulássemos
tanto
talvez seria doce
o azedo
ínfimo

e teríamos na alma
o pulsar puro
de não esconder
o que se sente
eis a cena:
discutíamos na beira da calçada
eu tropecei bruscamente até que me estendi sobre o asfalto
tu decidiu voltar pra casa
os carros passam por mim de maneira natural
e tu está de costas, indo pra algum lugar

os carros continuam passando sobre mim
e cada vez sou mais asfalto e menos pessoa

mais asfalto e menos pessoa

tu me deixou ficar mais asfalto e menos pessoa

agora sou asfalto
e não pessoa.
agora eu te perdoa.
depois de todos os acidentes
quando as cortinas se fecham
e o público se vai
resta uma poema aqui
meia dúzia de frases ali
e um pedaço do meu peito
eternamente encardido
de ti

antes de ti, inocência
durante, paz
agora, depois
e ainda contínuo,
peso

toneladas na garganta
e um tanto de nó
no coração
me estico até onde não consigo
pra te ver florir
me esmago e até nem respiro
pra te ver sorrir

amor elástico
amor sozinho
amor que vai, por si
e, se volta, é sem ti

e o tempo
que contabilizamos em dias
meses
anos
horas
semanas

insanas

pois quando olhei
tuas janelas da alma
já era tarde
tarde demais
para qualquer medida
ser tomada
ou até para alguma dor
ser evitada

se tu veio, foi porque sofri 
se te sofro, foi porque te vi
se tu me tem, é porque senti
se eu te guardo, tu não está 
aqui

e se as lágrimas caírem
a culpa é das linhas
as paralelas
as não cruzáveis
aquelas, as nossas
duvidáveis
e nem um pouco
viáveis

nossas linhas
eternamente
aéreas

etéreas
a fração de segundo que define os passos de uma vida 
inteira
ou quase
talvez metade

os minutos que delimitam a vida faceira
ou estreita
que rima com dor
ou produz amor
que carrega nas mãos uma flor
que será entregue ao rosto sem cor
que só poderá ser descoberto
com o tempo
e então
na fração de segundo
ela pode te escolher dentre o mundo todo
ou o mundo pode escolhê-la pra ti
e então tu terá um pedaço de eternidade
uma parcela de nunca-mais
um momento entre parênteses
um céu feito de vazio e sons
porque essas são as coisas
mais preciosas e silenciosas
que alguém pode te propor
em uma vida
inteira

fracione os segundos
e me salve da amenidade
com o teu riso absurdo

Bicho ciúme

teu ciúme, incessante
me desperta, me agita
de insônia fico cheia
menos sono, mais aflita
teu ciúme, sem motivo
me condena, me irrita
quanto mais quero acalmar
mais tu me evita
e quando tento até falar
tu me corta, me emudece
até mesmo me entristece
deita e dorme, vê se esquece
e eu insônia, eu estresse
o teu ciúme, bicho ácido
me cansa, me culpa
te peço, me escuta
cala esse ciúme
cadê tua boca que sorria?


Visceral

a gente sempre paga pra ver
mesmo sabendo o final
seria até normal
se o ser humano não fosse
racional

os fins são sarcásticos
os motivos são plásticos
porque as verdades devem ser mantidas
num sepulcro

ser entregue é ser burro
ser desistente é ser nulo
e o amor é impuro

tudo se desmancha quando conhecemos
a liberdade
e todas as coisas se quebram perante a
insanidade

eu poderia ter muitos outros defeitos
e me privar de alguns efeitos
que só podem me estragar

mas eu gosto de assolar

desconstruir-se é a estrada
a direção é a euforia

transcender é estadia

eu me rejeito a procurar ela nas outras moças
separo os rostos e os corpos para não misturar
o real com o possível
sufoco minha alma toda vez que tenho tendência à
voltar

me falta o ar

mas o que atinge em cheio o meu peito forte
é o azar ou a sorte de enxergar em outros seres
a insuficiência que nela se ausenta

todas as outras são 
mas sempre lhes falta algo
para que eu seja junto

há uma plenitude conturbada
que só acontece
quando a menina-primavera
se aproxima de mim
e sussurra
paz

a ficha que cai

eu te amo, mas eu sou errada
eu te amo, mas eu tô errada
eu te amo desde não sei quando
eu te amo por descuido
eu te amo não te amando

me apaixonei num dia qualquer
e hoje já deixo de lado
a paixão

eu te amo pouco
eu te amo fraternalmente
eu te amo rouco
eu te amo de um jeito diabólico

eu te amo sim
eu te amo não
eu te amo talvez
eu te amo pra sempre?

eu te amo pelo teu cheiro
eu te amo pela tua presença
eu te amo porque não tive como 
escapar de te amar

eu te amo porque foi isso
foi isso que aconteceu
de repente, eu te amo

e isso já faz tempo
eu pago o preço da omissão
e essa frase martela na minha
cabeça
explodindo minhas têmporas
em cinzas e purpurinas

me dirigi exatamente à encruzilhada
com meus pés presos
no mover dos teus olhos

olhos teus que não transmitiram
mensagem 
mas que conduziram
viagem

e agora eu sei lê-los
e muitas vezes
quis interpretá-los
ao meu favor
mas a sinceridade paira em
meu peito
de maneira ao teu dispôr

não trapaceei a verdade
tampouco contive a maldade
dancei com a sensualidade tua
e por ser nua
eu sigo omitindo
para o bem
da nossa transparência
eu queria te falar muitas coisas
e deveria me corrigir: quero
mas sempre que eu quero, eu faço
e não quero querer te falar essas coisas
ainda.

talvez não hoje, nem amanhã
talvez te falar não me traga uma mente sã
prefiro beber dos meus pensamentos turvos
do que te trazer pra perto da tempestade
que sou agora.

eu acredito que eu esteja muito errada
e bem perdida, mas existe um caminho?
se existe, deixa pra lá, benzinho
eu quero é fugir.

Sina

sou um exército errante
condenado à escapar
das cachoeiras bonitas,
carinhos da vida
da paz de um lar

sou nômade
em terras proibidas
quero abrigo
no perigo
posso ver a casa
desmoronar

uma mansão beira-mar
braços a me esperar
me fariam encantar
não fosse o magnetismo vulgar,
desconcertante dançar
que a estrada contrária
me faz suspirar

nasci induzida ao erro
me permito querendo acertar
o coração está numa armadura 
de ferro
e aponta pulsante
para o falho lugar

Impasse

tu está tanto 
em meu coração
que te mantenho longe dos olhos
e afastada da boca
tu é uma sucessão de momentos
incríveis
de ansiedades
terríveis
mas de sorrisos
inesquecíveis


mal mal mal
e pior
se chão
sem demarcação
sem o piso gelado
do fundo do poço
do poço do fundo
de dentro de nós
o cimento com unhas
acaricia a alma
que era macia
e amassa a íris
do olho que reluzia

passado passou
o fundo afundou
e ainda cava o buraco
com a mão em desespero
carne viva
peito morto
e riso,
riso muito
puro riso
de desgosto

atriz por acaso
por muito querer do tempo
atua o descaso
de amortecer lento
sem véu e com máscara
sem máscara e sem troféu
no meio-fio da rota escura
pelo céu é engolida
sujando a praça 
e a avenida
com folhas em branco
quebrando em feridas

outono, outono
outrora te abandono
porque teu sol queima em flor
e o anil ainda é vil

outono, agora, fica
porque o inverno anda finca
e a primavera ainda é
infelizmente
muito mais linda

Hipocrisia

o tiro do tráfico
tapado pela farda
o fardo em pó
da pouca fala
sobre ópio,
erva, ácido
sobre o clássico
entorpecer
das caixas farmacêuticas
das receitas terapêuticas
da química que ilude lícita
quem se mune de ilícita

um palheiro,
um bastão nicotinado
não diferencia a fissura
dum alucinado
do baseado bolado
por mim, por ti
pelo favelado
quem vem com bala de borracha
não vê a caracha branca
do consumidor, amigo, colega
policial da moral fenomenal

a borracha da bala atinge a cara
preta e o bolso pobre
o tráfico respinga o sangue negro
dos escravos silenciados pelos
senhores bem armados
aventurados
pelo homem nobre
mestre da mulher
do animal
do marginal
que cheira a carreira pura
pura hipocrisia
apontada pra periferia
com a ferrenha ousadia 
de matar pra assegurar
seu colarinho engomado
junto do sujeito renomado
na cotidiana alegoria
do revólver sagaz
honrando a paz
que ninguém consegue
apalpar
e essa hora ia chegar 
vi tão perto ali na esquina
muita sorte nessa sina
não dá pra continuar

a intuição sábia
avisa cedo quem visa escapar
mas a alma teima tanto
que tropeça pra se entregar

será que eu vi a luz
ou foi só sorrir pra refletir?
a ausência nos embala pra querer
até o mais breve espairecer
de um pouco de paz

mas a tristeza é melodia, vida,
que embala céu e inferno
no peito de amor escasso
e se eu for pra tão longe
não é porque desfaço - é uma
questão de ser
e ser é tão extenso
que não nos aproximamos
mais

eu viajei na tua face
e a lua nos abraçou
num doce enlace
só que a noite não dura pra sempre
e a beleza só existe
porque tu não ficou
quantas pessoas
com seus cafés
cabem entre nós?
não importa,
não importa
já foi-se o tempo
em que éramos
a sós

teu hálito não me diz mais nada
nem teu cheiro quente explode
no meu nariz
já foi-se o tempo
em que te ver
era ser feliz

foi-se embora a magia
de não te deixar escapar
dos meus olhos
hoje isso é feio
hoje tu me inspira poemas
inglórios

mas os pesares não inibem
a força da memória - eles
apertam a forca da vitória
que só uma de nós poderá
conseguir

ir embora sempre deixa um pedaço

domingo, 11 de janeiro de 2015

desembolsa com rapidez
o que se guarda com rispidez

são vultos que denotam
ações que derrotam

já doeu tão mais
que agora é festa se pulsar

comemoro ainda
se houver como desenredar

mas o enredo tão bonito
com cacos pra tropeçar

contra a corrente, 
deixemos como está

se vai, uma hora foi
e se for, deixe que está